Um vídeo de simulação que circulou nas redes sociais reacendeu o debate sobre os efeitos do cigarro eletrônico no organismo. A proposta era simples: mostrar, em uma linha do tempo de 30 dias, o que pode acontecer com o corpo de quem passa a vaporizar nicotina diariamente.
Durante anos, os dispositivos eletrônicos foram divulgados como alternativa menos nociva ao cigarro tradicional. Ainda hoje, órgãos de saúde dos Estados Unidos, como o Centers for Disease Control and Prevention, afirmam que esses produtos tendem a apresentar menos substâncias tóxicas do que o tabaco queimado. Isso não significa ausência de risco.
Logo na primeira tragada, segundo a simulação divulgada pelo canal Untold Healing, a nicotina atinge o cérebro em poucos segundos. “A nicotina inunda seus receptores cerebrais em sete segundos, desencadeando a liberação de dopamina”, explica o vídeo. “Seu cérebro está se reprogramando para precisar dessa dose.”
Pesquisas anteriores já indicavam que, após a inalação, a nicotina pode alcançar o cérebro entre 10 e 20 segundos. Essa rapidez ajuda a explicar o potencial de dependência.
O que acontece no cérebro e nos pulmões
A nicotina interfere diretamente nos circuitos ligados à recompensa e ao prazer. Em adolescentes e jovens adultos, o impacto pode ser ainda maior. O CDC alerta que o desenvolvimento cerebral continua até aproximadamente os 25 anos, e o uso de nicotina nesse período pode afetar áreas responsáveis por atenção, aprendizado, controle de impulsos e regulação do humor.
Enquanto isso, os pulmões também começam a reagir. A simulação aponta que sinais iniciais de inflamação podem surgir em poucos dias. Tosse persistente, chiado e dificuldade para respirar podem aparecer após algumas semanas de uso diário.
A University of Utah Health descreve um quadro chamado EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaping. Trata-se de uma condição inflamatória que pode se manifestar com falta de ar, dor ao respirar e tosse. Em alguns casos, os sintomas evoluem rapidamente; em outros, surgem ao longo de semanas ou meses.
Dependendo da gravidade, a lesão pode deixar cicatrizes permanentes no tecido pulmonar.
Alterações no coração e risco de dependência
Os efeitos não se limitam ao sistema respiratório. A simulação destaca mudanças cardiovasculares logo após o uso. A frequência cardíaca pode aumentar em cerca de quatro batimentos por minuto, e há relatos de elevação temporária da pressão arterial sistólica.
O Victor Chang Cardiac Research Institute aponta que o uso de cigarros eletrônicos está associado ao aumento da rigidez das artérias e a alterações na camada interna dos vasos sanguíneos. Esses fatores estão ligados ao risco de problemas cardíacos.
Michael Blaha, médico da Johns Hopkins Medicine, afirma que “as pessoas precisam entender que os cigarros eletrônicos são potencialmente perigosos para a saúde”. Ele menciona dados emergentes que sugerem associação com doença pulmonar crônica, asma e maior risco cardiovascular quando há uso combinado com cigarro tradicional.
Já o Dr. Andrew Freeman, em entrevista à University of Utah Health, ressalta que os pulmões não foram feitos para absorver substâncias recreativas. “Eles são um órgão extraordinário, fornecendo oxigênio vital e eliminando dióxido de carbono, ao mesmo tempo em que protegem contra infecções e elementos nocivos do ambiente.”
Segundo ele, a função pulmonar começa a declinar gradualmente a partir do início da vida adulta. A exposição contínua a substâncias inaladas pode acelerar esse processo.
Ao final de 30 dias de uso diário, a simulação sugere que o organismo já pode estar dependente da nicotina. A necessidade frequente de novas doses torna a interrupção mais difícil, reforçando o ciclo de consumo.
Embora ainda não exista consenso definitivo sobre todos os impactos de longo prazo, estudos em andamento investigam possíveis ligações com doenças pulmonares crônicas, insuficiência cardíaca e outras complicações. Pesquisadores seguem analisando os efeitos de compostos químicos presentes nos líquidos e aerossóis desses dispositivos.