A poeira cinza-esbranquiçada que cobria a jaqueta de trabalho de Roland parecia inofensiva para sua filha, Heather Von St James. Durante a infância em Minnesota, nos Estados Unidos, a menina costumava vestir o casaco do pai, sem saber que as fibras presas ao tecido eram, na verdade, partículas de amianto.
Roland trabalhava em canteiros de obras e retornava para casa carregando o mineral tóxico em suas roupas. Heather, hoje com 57 anos, viveu décadas sem imaginar que aquele contato rotineiro havia selado um diagnóstico severo para o seu futuro.
O amianto é um mineral silicato natural que foi amplamente utilizado na construção civil devido à sua resistência ao calor e propriedades isolantes. No entanto, suas fibras microscópicas, quando inaladas ou ingeridas, podem se alojar no revestimento dos órgãos internos. O perigo é silencioso, pois os sintomas costumam aparecer apenas muitos anos após a exposição inicial. No caso de Heather, o impacto surgiu quando ela tinha 36 anos e estava no auge de sua primeira gravidez.
Sintomas e diagnóstico inesperado
Heather Von St. James foi diagnosticada com mesotelioma pleural aos 36 anos após usar, quando criança, a jaqueta de trabalho do pai.
O que começou como um cansaço extremo e febres frequentes foi inicialmente atribuído ao desgaste natural da gestação. Heather descreveu a sensação física daquela época de forma intensa. “Era como se um caminhão estivesse estacionado no meu peito”, afirmou.
A dificuldade respiratória e a exaustão persistiram mesmo após o nascimento de sua filha, realizado por meio de uma cesariana. Preocupada com a falta de melhora, a cabeleireira buscou auxílio médico e foi submetida a uma tomografia computadorizada.
O exame revelou uma massa tumoral próxima ao seu pulmão esquerdo. Em apenas duas semanas, os médicos confirmaram o diagnóstico de mesotelioma pleural, um tipo de câncer raro e extremamente agressivo que atinge a pleura, a membrana que reveste os pulmões. A notícia foi acompanhada de uma estimativa de vida desoladora: ela teria apenas cerca de 15 meses de sobrevivência.
A reação ao veredito médico foi de choque absoluto. “Foi descrença”, disse Heather. “Eu apenas pensava: ‘Como isso pode estar acontecendo?’. Não havia dúvida de que eu ia morrer. Era tipo, o que eu faço para vencer isso? Minha mente estava girando e eu não conseguia respirar. Comecei a ter um ataque de pânico naquela sala enquanto eles explicavam o que era mesotelioma. Comecei a chorar e tive que sair da sala.”
O procedimento cirúrgico radical
Heather teve que se submeter a uma cirurgia arriscada para remover o tumor.
Diante da gravidade da situação, Heather optou por um tratamento drástico e arriscado em 2006. A cirurgia complexa visava remover o máximo possível do tecido afetado pelo câncer. Durante o procedimento, os cirurgiões removeram seu pulmão esquerdo, uma costela, a pleura, parte do diafragma e o revestimento do coração. A intervenção física foi apenas o começo de uma longa jornada de recuperação que incluiu quatro rodadas de quimioterapia e 30 sessões de radioterapia.
A sobrevivência a longo prazo em casos de mesotelioma é considerada uma raridade pela comunidade médica. Heather superou as expectativas iniciais de 15 meses e permanece livre do câncer quase duas décadas depois. Entretanto, a ausência de um pulmão e as sequelas dos tratamentos agressivos impõem limitações permanentes à sua rotina. Ela relata que fica ofegante com facilidade, não consegue correr e tem dificuldades para levantar objetos pesados.
Limitações físicas e longevidade
Heather agora trabalha para aumentar a conscientização sobre o mesotelioma.
Além da capacidade respiratória reduzida, Heather lida com danos colaterais nos nervos e articulações. “Alguns dias as pessoas dizem que, depois que você sobrevive ao câncer, tudo deve ser ótimo”, comentou. “Mas há muitas coisas físicas contínuas que acontecem após as cirurgias. Eu fico sem fôlego facilmente e fico fadigada facilmente. Tenho um ombro travado e não consigo abrir adequadamente minha mão esquerda.”
A exposição ao amianto também afetou seu pai, Roland, que faleceu em 2014 devido a um câncer nos rins. Os médicos acreditam que a doença dele também possuía ligações diretas com o manuseio do mineral nas obras em que trabalhou. Heather observa que sua longevidade é um ponto fora da curva nos registros oncológicos.
“Os médicos raramente veem pacientes viverem tanto tempo depois do mesotelioma. Eles dizem que, no meu caso, estar aqui há 20 anos é raro. Vinte anos depois e ainda estou viva. Dar às pessoas essa esperança de que isso pode ser feito, que a medicina pode nos levar até lá. Isso traz muita esperança para tantos”, relatou.