Nas últimas décadas, mudanças profundas no modo de viver, trabalhar e se relacionar passaram a influenciar também a vida sexual. Pesquisas realizadas em diferentes países indicam que a frequência de relações sexuais diminuiu de forma consistente em comparação com os anos 1990, atingindo pessoas de várias idades e contextos sociais, incluindo casais estáveis.
Levantamentos conduzidos pelo National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles apontam que a redução não se limita a um grupo específico. Segundo a diretora acadêmica Soazig Clifton, houve queda em praticamente todos os recortes analisados. Ela afirma que, embora hoje existam menos casais vivendo juntos do que nos anos 1990, a diminuição permanece mesmo quando a análise se concentra apenas em pessoas que moram com seus parceiros.
Dados históricos ilustram bem essa mudança. Em 1990, jovens entre 16 e 24 anos relatavam, em média, cerca de cinco relações sexuais por mês. Duas décadas depois, esse número caiu para aproximadamente três. O declínio foi ainda mais acentuado entre pessoas casadas, casais que dividem a mesma casa e faixas etárias mais altas, embora as causas exatas variem e nem sempre sejam fáceis de identificar.
Rotina digital, estresse e atenção fragmentada
Um dos fatores mais citados por especialistas é a expansão do ambiente digital. Dispositivos conectados, redes sociais e entretenimento sob demanda ampliaram as opções de lazer e reduziram o tempo dedicado à convivência íntima. Muitas pessoas relatam dificuldade em se desligar de telas, o que interfere na atenção ao parceiro e na disposição para o contato físico.
O estresse também aparece como elemento central. O médico generalista e terapeuta sexual Ben Davis observa que níveis elevados de ansiedade, depressão e solidão se tornaram mais comuns ao longo dos anos. Segundo ele, esses fatores atuam diretamente na redução do desejo sexual, somando-se às pressões profissionais e financeiras do cotidiano moderno.
Hormônios, saúde e estilo de vida
Outro ponto que ganhou destaque recente envolve os níveis hormonais, especialmente a testosterona. Esse hormônio, produzido tanto por homens quanto por mulheres, desempenha papel importante na libido e tende a diminuir naturalmente a partir dos 30 anos. O interesse pelo tema cresceu, impulsionado por discussões online e pela maior disponibilidade de tratamentos.
Dados oficiais do NHS Business Authority, reunidos pela Care Quality Commission, mostram que as prescrições de testosterona aumentaram cerca de 135% entre 2021 e 2024. Para o urologista Geoffrey Hackett, membro da British Society for Sexual Medicine, a queda nos níveis hormonais está ligada a fatores como aumento da obesidade, maior incidência de diabetes tipo 2 e estilos de vida cada vez mais sedentários.
Hackett afirma que a redução da atividade física e o ganho de peso contribuem diretamente para a diminuição da testosterona, o que ajuda a explicar parte da queda do desejo sexual observada em estudos recentes. Pesquisadores seguem analisando como esses elementos se combinam e afetam diferentes gerações de maneiras distintas.