Cientistas desenvolvem pílula anticoncepcional masculina para tomar antes do sexo
Pesquisadores da Weill Cornell Medicine, em Nova York, nos Estados Unidos, anunciaram em 23 de outubro de 2026 novos avanços no desenvolvimento de uma pílula anticoncepcional masculina que poderá ser tomada apenas 30 minutos antes da relação sexual. O medicamento experimental foi desenvolvido para impedir temporariamente a movimentação dos espermatozoides, sem interferir nos hormônios masculinos.
Segundo o farmacologista Jochen Buck, responsável pelo projeto ao lado do pesquisador Lonny Levin, a proposta é oferecer uma proteção contraceptiva de seis a oito horas, com recuperação da fertilidade após o término do efeito. Esses resultados, porém, ainda não foram comprovados em ensaios clínicos com homens.
A pesquisa recebeu um financiamento de US$ 8,2 milhões do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos, destinado aos próximos quatro anos de desenvolvimento e avaliação da segurança do medicamento.
Como funciona o novo anticoncepcional masculino
Diferentemente dos anticoncepcionais hormonais, que podem atuar sobre a produção de células reprodutivas, o medicamento desenvolvido pela equipe americana age diretamente sobre a capacidade de movimentação dos espermatozoides.
O composto bloqueia temporariamente uma enzima chamada adenilil ciclase solúvel, conhecida pela sigla sAC. Essa enzima participa da produção de uma molécula essencial para ativar a movimentação dos espermatozoides e prepará-los para a fecundação.
Quando a enzima é inibida, os espermatozoides perdem a capacidade de nadar adequadamente. Sem essa movimentação, eles não conseguem percorrer o sistema reprodutor feminino até alcançar o óvulo.
A estratégia não pretende interromper a produção de espermatozoides nem reduzir a testosterona. Seu objetivo é provocar um período temporário de infertilidade, permitindo que o homem utilize o contraceptivo somente quando necessário.
De acordo com Buck, a versão em desenvolvimento foi projetada para começar a agir aproximadamente meia hora após a administração. A duração de seis a oito horas divulgada pela equipe ainda precisará ser confirmada em humanos.
Experimentos impediram a gravidez em camundongos
A base científica do medicamento foi apresentada em um estudo publicado em 14 de fevereiro de 2023 na revista Nature Communications.
Na ocasião, pesquisadores utilizaram um composto experimental chamado TDI-11861 para bloquear a enzima sAC em camundongos machos.
Os resultados mostraram que uma única dose conseguia interromper rapidamente a movimentação dos espermatozoides, produzindo um efeito contraceptivo temporário.
Nos experimentos com administração por injeção, os animais tratados foram colocados para acasalar durante um intervalo iniciado 30 minutos após a aplicação e encerrado duas horas depois.
Nenhuma gravidez ocorreu entre os 52 acasalamentos realizados nesse período. Entre os animais do grupo de controle, que não receberam o medicamento ativo, aproximadamente 30% das fêmeas engravidaram.
Os pesquisadores também observaram que o composto não prejudicou o comportamento sexual dos camundongos. Os animais continuaram acasalando e ejaculando normalmente.
O efeito contraceptivo diminuiu com o passar das horas. Em um experimento com período de acasalamento mais longo, foram registradas cinco gestações em 55 tentativas. Após 24 horas, os animais haviam recuperado a fertilidade.
Os testes iniciais também avaliaram a administração oral do composto e confirmaram a redução da movimentação dos espermatozoides. Entretanto, os resultados sobre prevenção de gravidez descritos nesse estudo vieram dos experimentos com injeções.
Próxima etapa será testar a segurança em humanos
Depois dos experimentos publicados em 2023, os pesquisadores trabalharam no aperfeiçoamento de diferentes compostos para identificar um candidato adequado ao uso humano.
Segundo o comunicado oficial da Weill Cornell Medicine, o próximo passo será preparar um ensaio clínico de fase 1, com homens saudáveis e comparação entre o medicamento experimental e um placebo.
Os participantes serão acompanhados para identificar possíveis efeitos adversos. Amostras de sêmen também serão analisadas para verificar se os espermatozoides realmente perdem a mobilidade e posteriormente recuperam sua função.
A equipe precisará demonstrar que o medicamento é seguro mesmo quando utilizado repetidamente. Embora os estudos anteriores não tenham identificado efeitos adversos relevantes nos animais, isso não garante a mesma segurança em seres humanos.
Outro desafio será confirmar que o efeito persiste após a ejaculação, quando os espermatozoides entram no sistema reprodutor feminino, onde podem permanecer viáveis por vários dias.
Os pesquisadores Buck, Levin e Peter Meinke também são cofundadores da empresa Sacyl Pharmaceuticals, criada para auxiliar no desenvolvimento comercial da tecnologia. Eles possuem participação financeira e patentes