Após 23 anos sem braços, homem recebeu transplante duplo em cirurgia de 15 horas

📅 23/10/2026 👁️ 2 visualizações 🏷️ Saúde
Felix Gretarsson antes e depois de receber o transplante dos dois braços na França.

O islandês Felix Gretarsson, de 48 anos, recebeu um transplante dos dois braços em 13 de janeiro de 2021, no Hospital Édouard Herriot, em Lyon, na França. A cirurgia durou aproximadamente 15 horas e foi considerada a primeira do mundo a realizar um transplante bilateral de braços envolvendo a região dos ombros. O procedimento aconteceu 23 anos depois de um acidente elétrico que provocou a amputação dos membros superiores do paciente.

A operação foi confirmada pelos Hospices Civils de Lyon, instituição responsável pelo hospital, que publicou um relatório detalhado sobre a intervenção e as técnicas utilizadas.

O acidente de 11 mil volts

Em 12 de janeiro de 1998, Felix trabalhava como eletricista na Islândia quando sofreu uma descarga elétrica de 11 mil volts ao entrar em contato com uma linha de alta tensão.

O choque provocou queimaduras graves nos braços e o arremessou ao chão. Ele sofreu diversas fraturas e lesões internas, permanecendo em coma por aproximadamente três meses.

Para preservar sua vida, os médicos precisaram amputar os dois braços, deixando-o praticamente sem os membros superiores.

Segundo o relatório médico oficial publicado em janeiro de 2021, Felix também precisou passar por um transplante de fígado em 2002.

Apesar das amputações, ele continuou acompanhando os avanços das cirurgias de transplante. Em 2007, conseguiu encontrar o cirurgião francês Jean-Michel Dubernard durante uma conferência em Reykjavik, capital da Islândia.

Dubernard havia participado de procedimentos pioneiros envolvendo transplantes de mãos e apresentou ao islandês a possibilidade de avaliação para uma operação mais complexa.

Em 2013, Felix mudou-se para Lyon, onde começou a preparação médica e passou a aguardar um doador compatível. A espera se estendeu por vários anos.

Como os médicos transplantaram os dois braços

A cirurgia de janeiro de 2021 mobilizou aproximadamente 50 profissionais de saúde, incluindo cirurgiões, anestesistas, enfermeiros e especialistas em transplantes.

O procedimento foi coordenado pelo cirurgião Aram Gazarian e envolveu equipes trabalhando simultaneamente na preparação do doador e do receptor.

Um detalhe importante é que os transplantes não ocorreram exatamente da mesma maneira nos dois lados do corpo.

No braço direito, os médicos conectaram o membro doado a uma pequena porção do úmero que Felix ainda possuía. No lado esquerdo, foi necessário transplantar o úmero inteiro e reconstruir a articulação do ombro.

De acordo com o hospital francês, aproximadamente 15 estruturas musculares e tendíneas foram reconstruídas, juntamente com artérias, veias e numerosas conexões nervosas.

O maior desafio era restabelecer a circulação sanguínea rapidamente, evitando danos aos tecidos doados.

Os médicos conseguiram limitar o período sem circulação a 1 hora e 52 minutos no braço direito e 2 horas e 20 minutos no esquerdo.

O procedimento foi considerado pioneiro pela altura das amputações e pela necessidade de reconstrução do ombro. Transplantes de mãos e antebraços já haviam sido realizados anteriormente.

A recuperação dos movimentos

A recuperação começou poucas horas depois da cirurgia, inicialmente com movimentos passivos realizados por fisioterapeutas.

Os primeiros sinais de movimentação voluntária apareceram meses depois, quando Felix conseguiu contrair o bíceps de um dos braços transplantados.

Segundo o documentário da emissora irlandesa RTÉ, aproximadamente quatro meses após a operação ele já apresentava contrações musculares. Em setembro de 2021, também começava a movimentar o bíceps esquerdo.

A recuperação dependia do crescimento dos nervos do próprio paciente em direção aos músculos e às mãos transplantadas, um processo lento que exigia sessões frequentes de reabilitação.

Em uma entrevista concedida ao jornal islandês Vísir, em dezembro de 2025, Felix relatou que conseguia abrir e fechar parcialmente as duas mãos e dirigir um automóvel adaptado.

Ele reconheceu, entretanto, que ainda apresentava limitações consideráveis nos movimentos mais delicados dos dedos e continuava dependendo de ajuda para determinadas tarefas.

Em janeiro de 2026, cinco anos após a cirurgia, o hospital de Lyon publicou uma atualização sobre seu acompanhamento médico, incluindo avaliações da recuperação funcional.

Os riscos e os novos desafios do transplante

Ao contrário de uma prótese convencional, os braços transplantados são tecidos vivos de outra pessoa. Isso exige o uso contínuo de medicamentos imunossupressores para reduzir o risco de rejeição.

Felix já utilizava esses medicamentos em decorrência do transplante de fígado, mas precisou de ajustes no tratamento após receber os braços.

O procedimento também depende de um sistema de doação de órgãos e tecidos. No Brasil, essas atividades são regulamentadas pelo Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde. Uma cirurgia bilateral envolvendo os ombros exige condições técnicas e avaliações muito mais específicas do que os transplantes realizados rotineiramente.

A recuperação de Felix também teve complicações. Em 2025, ele relatou efeitos adversos dos medicamentos e a necessidade de uma cirurgia no quadril.

Em outubro de 2026, o islandês revelou que estava em tratamento contra um câncer no nariz e enfrentava uma nova complicação imunológica envolvendo os braços transplantados.

Segundo declarações feitas por ele em vídeo e divulgadas pelo jornal Vísir em 23 de outubro, exames de lesões na pele teriam identificado uma reação envolvendo células imunológicas provenientes do doador. Felix afirmou que o problema poderia estar