Aquecimento global pode favorecer o surgimento de fungos perigosos para humanos

📅 25/10/2026 👁️ 1 visualizações 🏷️ Saúde
Mulher tossindo com representação ampliada de fungos e calor intenso ao fundo.

Pesquisadores da Universidade de Würzburg, na Alemanha, publicaram em 2 de outubro de 2026 uma revisão científica que aponta o aquecimento global como possível fator para o surgimento de fungos capazes de provocar infecções graves em humanos. O trabalho, publicado na revista científica mSphere, analisou o caso da Candida auris, uma espécie resistente a medicamentos que consegue suportar temperaturas de até 47 °C. A hipótese é que o aumento das temperaturas ambientais esteja favorecendo a adaptação de fungos ao calor, permitindo que alguns superem uma das principais defesas naturais do organismo humano.

A pesquisa foi conduzida por Carla E. Schuh e Chaitanya S. Gokhale, que reuniram resultados de aproximadamente 180 estudos anteriores. Segundo os autores, a relação entre mudanças climáticas e o surgimento da Candida auris é cientificamente plausível, mas ainda não foi demonstrada como causa direta.

Como a temperatura do corpo protege contra fungos

O corpo humano mantém uma temperatura próxima de 37 °C, condição que impede a multiplicação de grande parte dos fungos encontrados no ambiente.

De acordo com a Universidade de Würzburg, existem entre 3 milhões e 5 milhões de espécies de fungos no planeta, mas apenas algumas centenas são capazes de infectar humanos.

Essa proteção ocorre porque muitos fungos se desenvolvem melhor em temperaturas inferiores às encontradas no interior do organismo. O sistema imunológico também desempenha um papel fundamental na prevenção dessas infecções.

Os pesquisadores defendem que o aumento gradual da temperatura ambiental pode favorecer espécies com maior tolerância ao calor. Ao longo das gerações, fungos que suportam temperaturas mais elevadas teriam vantagens de sobrevivência e reprodução.

Com isso, algumas espécies anteriormente incapazes de crescer a 37 °C poderiam adquirir características que facilitassem sua sobrevivência no corpo humano.

A revisão científica publicada na mSphere ressalta que essa possibilidade não significa que qualquer fungo adaptado ao calor se tornará perigoso. Para provocar uma doença, o microrganismo precisa superar outras barreiras biológicas, incluindo as defesas imunológicas.

O fungo que resiste a temperaturas de até 47 °C

A Candida auris foi identificada e descrita cientificamente em 2009, após ser isolada do ouvido de uma paciente no Japão. Análises posteriores encontraram evidências de sua presença na Coreia do Sul desde 1996.

Nos anos seguintes, pesquisadores identificaram diferentes linhagens genéticas do fungo em vários continentes. Essa diversidade sugere que populações distintas passaram por processos evolutivos independentes, em vez de todas terem se originado de um único surto.

Uma característica chama a atenção: enquanto espécies próximas apresentam dificuldades para crescer na temperatura corporal humana, a Candida auris se multiplica a 37 °C, e algumas de suas variantes sobrevivem a temperaturas de até 47 °C.

O fungo também consegue permanecer durante meses em superfícies hospitalares e apresentar resistência a diferentes classes de medicamentos antifúngicos.

Segundo a publicação original, pacientes com infecções da corrente sanguínea associadas à Candida auris apresentam taxas de mortalidade que variam entre 20% e 67% nos estudos analisados. Esses números não significam que todas as mortes sejam diretamente provocadas pelo fungo, pois muitos pacientes já apresentam doenças graves.

O possível papel do clima começou a receber atenção científica anos antes. Em 2019, pesquisadores publicaram na revista mBio uma hipótese relacionando o surgimento da Candida auris ao aquecimento global.

Os autores da revisão de 2026 reconhecem que outras explicações também precisam ser consideradas, incluindo o uso de fungicidas agrícolas, alterações nos habitats naturais e a transmissão dentro dos hospitais. O ambiente original do microrganismo ainda não foi estabelecido com segurança.

O que se sabe sobre a Candida auris no Brasil

O Brasil já registra surtos de Candida auris em unidades de saúde. O primeiro foi identificado na Bahia, em 2020, durante a pandemia de Covid-19.

Conforme o levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), atualizado em 2 de março de 2026, o país havia registrado 24 surtos e 146 casos confirmados de infecção ou colonização pelo fungo desde 2020.

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