Entre os documentos mais antigos ligados ao cristianismo, três pequenos fragmentos chamam a atenção de pesquisadores há mais de um século. Escritos em grego koiné, eles são considerados por muitos estudiosos como alguns dos registros mais remotos já encontrados do Novo Testamento.
Esses pedaços de papiro são atribuídos ao Evangelho de Mateus, um dos quatro relatos tradicionais sobre a vida de Jesus. O Novo Testamento, segunda parte da Bíblia cristã, reúne 27 livros e concentra-se nos ensinamentos, na trajetória e na morte de Cristo, além dos primeiros passos do cristianismo.
Atualmente, os fragmentos estão preservados na Biblioteca do Magdalen College, na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Conhecidos como Papiro Magdalen, ou P64, eles chegaram ao acervo em 1901, após serem doados pelo reverendo Charles Bousfield Huleatt. Antes disso, Huleatt teria adquirido o material em Luxor, no Egito, e decidiu entregá-lo à instituição onde havia estudado.
Os trechos preservados não formam páginas completas. São partes de frases, distribuídas em três fragmentos, com escrita visível nos dois lados de cada pedaço. Esse detalhe é importante porque indica que não se tratava de um rolo tradicional, mas de um códice, formato semelhante ao de um livro encadernado. Esses restos de papiro são apontados como os exemplares mais antigos conhecidos desse tipo de livro.
O que dizem os fragmentos
Fragmentos do Novo Testamento datam de 2.000 anos atrás (Biblioteca do Magdalen College)
O conteúdo remanescente menciona personagens centrais do cristianismo, como Jesus, Judas Iscariotes e Pedro, além de referências à Galileia. Um dos trechos registra: “Derramou sobre a cabeça dele enquanto estava à mesa. Ao verem isso, os discípulos se indignaram”.
No verso do mesmo fragmento, aparece a frase: “Jesus lhes disse: ‘Todos vocês me abandonarão esta noite, pois está escrito…’”.
Outro pedaço traz a passagem: “Jesus percebeu isso e disse: ‘Por que estão perturbando a mulher? O que ela fez por mim…’”. No lado oposto, lê-se: “Irei adiante de vocês para a Galileia’. Então Pedro lhe disse…”.
O terceiro fragmento menciona diretamente Judas: “Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi aos principais sacerdotes e disse: ‘O que vocês estão dispostos a me dar…’”. Do outro lado, está registrado: “Eles ficaram muito aflitos e começaram a perguntar, um por um: ‘Não sou eu, Senhor, sou?’. Ele respondeu: ‘Aquele que comigo põe a mão no prato’”.
Uma experiência marcante
O papiro já foi analisado por diversos especialistas ao longo das décadas. Entre eles está o doutor Jeremiah Johnston, que estudou detalhadamente o P64. Ao ter acesso direto aos fragmentos, descreveu a experiência como profundamente impactante.
“Ele foi literalmente retirado do que parecia uma caixa de sapatos, nem estava em exibição, e eu tive todo o tempo que quis com um dos artefatos cristãos mais valiosos da Terra”, afirmou ao Mail Online.
Sobre o momento em que segurou o fragmento, declarou: “Estou segurando esse pedaço, sabendo que tem 2.000 anos, e saber que é verdadeiro, e que a balança da verdade pende a favor do cristianismo, foi transformador para mim”.
Os fragmentos continuam guardados na biblioteca de Oxford, onde permanecem como objeto de estudo e debate acadêmico, além de despertarem interesse de historiadores, teólogos e curiosos do mundo inteiro.