A tensão entre Estados Unidos e Irã ganhou novos contornos após uma série de acontecimentos envolvendo ataques militares, disputas políticas e declarações duras entre autoridades dos dois países. O cenário se agravou depois da morte do aiatolá Ali Khamenei durante bombardeios atribuídos aos Estados Unidos e a Israel, episódio que provocou reações imediatas em Teerã.
Ali Khamenei havia assumido a liderança suprema do Irã em 1989, após a morte de Ruhollah Khomeini, figura central da Revolução Islâmica de 1979. Durante décadas, ele ocupou o posto mais poderoso do país, exercendo influência direta sobre as forças armadas, a política externa e as instituições religiosas do regime.
Após sua morte, a Assembleia de Especialistas anunciou que Mojtaba Khamenei, filho do antigo líder, assumiria o cargo de líder supremo. A escolha chamou atenção porque ele se tornou o primeiro ocupante dessa posição que não participou diretamente da revolução de 1979, evento que estabeleceu o atual sistema político iraniano.
Enquanto o processo de sucessão acontecia em Teerã, autoridades iranianas também passaram a responder às declarações feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A troca de mensagens públicas elevou ainda mais o clima de hostilidade entre os dois países.
Ameaça direta e troca de declarações
Uma das respostas mais contundentes veio de Ali Ardashir Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. Em uma mensagem divulgada após comentários feitos por Trump em sua rede social Truth Social, Larijani deixou clara a posição iraniana.
Ele afirmou: “A nação de Ashura do Irã não tem medo de suas ameaças vazias. Até pessoas maiores do que você não conseguiram eliminar a nação iraniana. Tenha cuidado para não ser eliminado”.
A mensagem foi assinada oficialmente pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional e datada de Teerã, dez dias após a morte do aiatolá Ali Khamenei.
As declarações ocorreram em meio a um histórico recente de ameaças mútuas. Em fevereiro de 2025, falando no Salão Oval da Casa Branca, Trump afirmou que qualquer tentativa de assassinato contra ele por parte do Irã teria consequências extremas.
Segundo o presidente norte-americano, ordens já teriam sido deixadas caso isso acontecesse. Ele declarou: “Esse seria o fim. Eu deixei instruções. Se fizerem isso, serão obliterados. Não restará nada”.
A retórica também incluiu alertas sobre possíveis ações iranianas contra rotas estratégicas de petróleo no Oriente Médio.
O papel estratégico do Estreito de Hormuz
Grande parte da tensão atual gira em torno do Estreito de Hormuz, uma estreita passagem marítima localizada entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Ao norte está o território iraniano, enquanto ao sul ficam os Emirados Árabes Unidos e a Península Arábica.
Esse corredor marítimo é considerado uma das rotas comerciais mais importantes do planeta para o transporte de petróleo. Países como Kuwait, Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Iraque dependem da passagem para enviar suas exportações energéticas para diversas partes do mundo.
A partir dali, navios petroleiros podem seguir rumo ao Canal de Suez, passando pelo Mar Vermelho, ou navegar para o leste em direção a países como Paquistão e Índia.
Estimativas indicam que cerca de 20 por cento de todo o petróleo comercializado globalmente passa por essa região. Por isso, qualquer ameaça de bloqueio ou ataque à navegação gera forte impacto nos mercados internacionais.
Nos últimos dias, o tráfego de embarcações diminuiu drasticamente. Em situações normais, aproximadamente 100 navios atravessam o estreito diariamente. Com a escalada do conflito, esse número caiu de forma significativa.
Relatos apontam que apenas algumas embarcações continuaram a realizar a travessia. Algumas adotaram medidas incomuns para reduzir riscos. Um navio chegou a desligar seu transponder durante parte da viagem até Mumbai, enquanto outro indicou nos sinais de comunicação que era operado por uma empresa chinesa e tripulado por chineses.
Mesmo com as preocupações de segurança, o governo dos Estados Unidos anunciou medidas para tentar tranquilizar o mercado marítimo. Entre elas está um programa de resseguro estimado em cerca de 20 bilhões de dólares destinado a cobrir possíveis prejuízos de navios comerciais.
Além disso, Trump também incentivou publicamente as tripulações de petroleiros a continuarem navegando pela região. Em uma declaração que repercutiu amplamente, ele afirmou que os marinheiros deveriam “mostrar coragem”.
Enquanto a navegação permanece reduzida, os mercados de energia já sentiram os efeitos da instabilidade. O preço internacional do petróleo chegou a aproximadamente 119 dólares por barril durante o período de maior tensão.