Em 1961, na cidade de Reading, no estado da Pensilvânia, nasceram duas crianças que desafiariam previsões médicas e expectativas sociais ao longo de mais de seis décadas. Lori e George Schappell vieram ao mundo com os crânios parcialmente unidos, ligados pelo lado esquerdo da testa. Além da fusão óssea, compartilhavam vasos sanguíneos vitais e cerca de 30% do cérebro.
Na época, médicos acreditavam que dificilmente sobreviveriam ao primeiro ano de vida. A medicina ainda não dispunha de recursos suficientes para realizar uma separação com segurança. Mesmo quando os avanços científicos passaram a permitir procedimentos mais complexos, a decisão foi outra.
Em entrevista ao Los Angeles Times, em 2002, Lori afirmou: “Eu não acredito em separação. Acho que você está mexendo com o trabalho de Deus.” George reforçou a posição: “Seríamos separados? De jeito nenhum. Minha teoria é: por que consertar o que não está quebrado?”
Eles viveram 62 anos. Em 2022, passaram a deter o recorde mundial como os gêmeos siameses mais velhos do mundo, título reconhecido pelo Guinness World Records e mantido até suas mortes, em 2024.
Vida adulta e independência
Apesar da condição rara, construíram uma rotina que desafiava a curiosidade do público. Aos 21 anos, decidiram sair da casa dos pais e morar sozinhos. Organizavam o apartamento, viajavam e mantinham interesses próprios.
“Most people don’t believe us but we do have very normal lives. We travel, tidy our flat and Lori has even had a boyfriend. Nothing stops us doing what we want”, disse George em entrevista ao jornal The Sun. Em tradução: “A maioria das pessoas não acredita, mas temos vidas muito normais. Viajamos, arrumamos nosso apartamento e Lori até já teve namorado. Nada nos impede de fazer o que queremos.”
Os quartos refletiam personalidades distintas. Lori descrevia o seu como “mais feminino”, enquanto o de George era coberto por pôsteres de música. Dormiam alternando entre os dois ambientes.
Lori tornou-se campeã de boliche de dez pinos. George seguiu carreira na música country e chegou a receber prêmios na área. Ele também nasceu com espinha bífida, condição em que a medula espinhal não se desenvolve completamente durante a gestação, podendo causar limitações motoras. Por isso, utilizava cadeira de rodas, empurrada por Lori.
George nasceu originalmente Dori Schappell (BBC)
Um segredo revelado após décadas
Registrado ao nascer como Dori e designado como do sexo feminino, George revelou publicamente em 2007 que era um homem trans. A identidade de gênero foi mantida em segredo por muitos anos, inclusive da própria irmã.
Em 2011, declarou ao The Sun: “Desde muito jovem eu sabia que deveria ter sido um menino.” Ele também contou: “Eu adorava brincar com trens e odiava roupas femininas. Mantive meu desejo de mudar de sexo escondido, até mesmo de Lori, por muitos anos. Foi muito difícil, mas eu estava ficando mais velho e simplesmente não queria viver uma mentira. Eu sabia que precisava viver minha vida do jeito que eu queria.”
Lori admitiu que a revelação foi um choque inicial, mas declarou sentir orgulho do irmão. “Foi uma decisão enorme, mas superamos tantas coisas em nossas vidas e juntos somos uma equipe muito forte. Nada pode quebrar isso”, afirmou.
Lori e George Schappell morreram em abril de 2024, no Hospital da Universidade da Pensilvânia, na cidade de Filadélfia. A causa da morte não foi divulgada publicamente.