A última vez que um ser humano deixou suas pegadas na poeira lunar foi em 1972. Eugene Cernan, comandante da missão Apollo 17, detém até hoje o título de último homem a caminhar na Lua. Desde então, mais de cinco décadas se passaram sem que nenhum outro astronauta repetisse o feito, apesar dos saltos gigantescos na computação e na engenharia aeroespacial que ocorreram nesse intervalo.
Muitas pessoas acreditam que o hiato se deve a limitações tecnológicas ou falta de equipamentos modernos, mas a realidade por trás dessa pausa é diferente. A tecnologia para retornar ao satélite natural da Terra já existe há muito tempo, mas outros fatores pesaram na decisão de manter os pés no chão.
O peso da política espacial
Em 2018, Jim Bridenstine, que atuou como administrador da NASA por quase três anos, trouxe esclarecimentos sobre o motivo desse isolamento lunar prolongado. Segundo ele, o impedimento nunca foi técnico, mas sim de natureza política e financeira.
“Se não fosse pelo risco político, estaríamos na Lua agora. Na verdade, provavelmente estaríamos em Marte. Foram os riscos políticos que impediram que isso acontecesse”, revelou Bridenstine aos repórteres na época. Ele ainda completou dizendo que “o programa demorou muito e custa muito dinheiro”.
O financiamento de missões espaciais depende de aprovações governamentais que nem sempre priorizam a exploração de longo prazo. Mudanças de gestão e de objetivos estratégicos ao longo das décadas acabaram deixando os planos de retorno à Lua em segundo plano, favorecendo outras prioridades orçamentárias.
O retorno com a missão Artemis II
Artemis II foi lançado em 1 de abril.
O cenário começou a mudar com o desenvolvimento do programa Artemis. Recentemente, a missão Artemis II marcou um passo decisivo ao enviar a primeira tripulação para orbitar a Lua em mais de meio século. A nave Orion carrega quatro astronautas: Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen.
Lançada em uma quarta-feira, 1 de abril, a missão tem uma duração prevista de 10 dias. O objetivo principal é testar os sistemas necessários para futuras estadias prolongadas no espaço e preparar o caminho para a Artemis III, que pretende finalmente colocar humanos novamente na superfície lunar.
No sábado, 4 de abril, a NASA registrou que a espaçonave já se encontrava mais próxima da Lua do que da Terra. A tripulação espera atingir seu ponto de destino orbital na segunda-feira, 6 de abril. Um dos momentos mais aguardados é a tentativa de capturar imagens do lado oculto da Lua, uma região que ainda carece de registros detalhados feitos por olhos humanos próximos.
A sensação de cair do céu
Jeremy Hansen, o único canadense a bordo, compartilhou as sensações da viagem durante uma entrevista coletiva realizada diretamente do espaço. Ele descreveu a dinâmica da trajetória da nave e como a percepção da distância muda rapidamente durante as manobras orbitais.
“No nosso primeiro dia no espaço, vimos algumas coisas extraordinárias. A Terra de perto. Quando tiramos um cochilo e levantamos, a Terra estava tão longe de novo”, relatou Hansen. O astronauta explicou o impacto de uma manobra de injeção translunar, que exige um retorno momentâneo para ganhar impulso.
“Para fazer aquela transição ou injeção, voltamos todo o caminho para a Terra novamente. Estávamos lá fora a 60.000 km, voltamos para dentro de 200 km do planeta, e pareceu que estávamos caindo do céu de volta para a Terra”, disse ele. A missão serve como um campo de testes crítico para as tecnologias que, no futuro, levarão a humanidade até Marte.