Durante anos, o pesquisador britânico Carl Miller mergulhou nas camadas mais ocultas da internet para entender como funcionam os espaços anônimos conhecidos como dark web. Em uma de suas investigações, ele se deparou com algo que descreveu como a experiência mais perturbadora de toda a sua carreira.
Em uma palestra no TED, Miller revelou que encontrou um site que mantinha uma espécie de “lista de mortes”. Nela, usuários publicavam nomes de pessoas que desejavam ver assassinadas, junto com valores em dinheiro que estariam dispostos a pagar pelo crime.
Ele não poupou palavras ao descrever o que sentiu ao ler o conteúdo. “É a coisa mais grotesca, perturbadora, horrível e assustadora que eu já tive que ler em toda a minha vida”, afirmou.
Segundo ele, a lista crescia constantemente.
A descoberta aconteceu em plena pandemia de COVID-19. Após meses de isolamento, as primeiras pessoas que ele encontrou presencialmente foram dois agentes da Polícia Metropolitana de Londres. Miller organizou todas as informações que havia reunido e apresentou aos policiais.
“Eu expliquei tudo. Mostrei o site, mostrei as invasões, mostrei os pedidos. Fizemos um diagrama de como o site funcionava”, relatou. A reação não foi a que ele esperava. Os agentes olharam para o material, depois para ele, e trocaram olhares entre si. “Eles estavam genuinamente preocupados que eu estivesse louco”, contou.
A polícia optou por não abrir investigação naquele momento.
Telefonemas inesperados
Mesmo sem apoio oficial, Miller sentia que não poderia ignorar a situação. A possibilidade de que pessoas estivessem correndo risco real o levou a tomar uma decisão difícil: entrar em contato diretamente com os nomes que apareciam na lista.
Ele começou a telefonar para os supostos alvos para alertá-los de que alguém havia pago para que fossem mortos.
Durante a palestra, reproduziu o trecho de uma dessas ligações. Do outro lado da linha, após ouvir o aviso, o homem respondeu apenas: “Eu não me importo”.
Por uma semana, o pesquisador repetiu o mesmo procedimento. A maioria das pessoas desligava o telefone ou simplesmente não acreditava na história.
Diante das recusas, Miller buscou ajuda de jornalistas locais. Com a participação da imprensa, algumas conversas finalmente avançaram, e certos nomes da lista passaram a levar a ameaça a sério.
O que havia por trás do site
Ao analisar o funcionamento da plataforma com mais atenção, Miller percebeu algo essencial. Não existiam assassinos profissionais atuando nos bastidores.
O site não tinha interesse real em executar ninguém. A estrutura era voltada para extorquir dinheiro de quem solicitava os supostos crimes.
“Ficou muito claro que não havia assassinos sombrios por aí”, explicou. “O site queria arrancar o máximo de dinheiro possível das pessoas que faziam os pedidos.”
O detalhe mais inquietante estava em outro ponto. Aqueles que pagavam acreditavam que estavam contratando um homicídio de verdade. “As pessoas que faziam os pedidos estavam completamente sérias quando tentavam mandar matar alguém”, disse.
A chamada “lista de mortes” funcionava, na prática, como um golpe sofisticado. Ainda assim, revelava algo profundo sobre o tipo de conteúdo que circula nas áreas mais obscuras da internet e sobre até onde alguns indivíduos estão dispostos a ir quando acreditam estar protegidos pelo anonimato.