Pele de tilápia ajuda a recuperar a visão de cães e gatos com lesões na córnea

📅 26/10/2026 👁️ 1 visualizações 🏷️ Animais
Pele de tilápia utilizada em enxertos veterinários ao lado de um cachorro com alterações na córnea.

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, desenvolveram uma técnica que utiliza enxertos derivados da pele de tilápia para tratar lesões graves na córnea de cães e gatos. O procedimento começou a ser aplicado em animais em 2019 e foi investigado em uma dissertação apresentada em 2023. Os resultados mostram que o material pode acelerar a cicatrização, preservar a transparência da córnea e ajudar animais com a visão comprometida por ferimentos oculares.

A técnica foi estudada pela médica-veterinária Mirza de Souza Melo, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Medicina Translacional da UFC, sob orientação do professor Manoel Odorico de Moraes Filho. O trabalho faz parte de uma linha de pesquisa iniciada em 2014 no Ceará, inicialmente voltada ao tratamento de queimaduras com pele de tilápia.

Segundo uma reportagem publicada pela própria UFC em junho de 2023, a equipe já havia utilizado o procedimento em mais de 400 animais, com resultados considerados positivos pela pesquisadora.

Como a pele do peixe é transformada em enxerto

A matéria-prima utilizada é a pele da tilápia-do-nilo, espécie de peixe amplamente cultivada no Brasil. Seu tecido contém grandes quantidades de colágeno, uma proteína envolvida na sustentação e na reparação de tecidos.

Entretanto, a pele não é simplesmente retirada do peixe e colocada sobre o olho do animal. Ela passa por um processamento laboratorial que remove escamas e componentes celulares, produzindo uma estrutura chamada matriz dérmica acelular.

Essa membrana funciona como uma base para o crescimento de novas células. Durante a cirurgia, o veterinário posiciona o material sobre a região lesionada, favorecendo a reconstrução da superfície da córnea.

A dissertação apresentada à UFC em 2023 descreve boa aderência do enxerto, cicatrização favorável e preservação da transparência corneana nos animais avaliados.

Uma vantagem econômica apontada pelos pesquisadores é a possibilidade de produzir o material a partir de um subproduto da indústria pesqueira brasileira. Outras membranas utilizadas nessas cirurgias são importadas e podem ter custos elevados.

Estudos mostram recuperação da córnea e preservação da visão

Na pesquisa de mestrado, Mirza Melo avaliou 60 cães com lesões na córnea, comparando a matriz de tilápia com duas abordagens convencionais: uma membrana comercial de origem suína e um enxerto produzido com tecido conjuntival do próprio animal.

Conforme relatado pela pesquisadora à revista Pesquisa FAPESP, em 2023, o grupo tratado com a matriz de tilápia apresentou recuperação mais rápida e menor tempo até a alta clínica.

Outro trabalho, publicado na revista Ciência Animal em 2024, descreveu aplicações do material em diferentes formas de processamento.

Um dos pacientes era um shih-tzu de oito anos que havia apresentado perda da visão associada a complicações oculares. Após a intervenção, os pesquisadores relataram recuperação da transparência da córnea e presença de resposta visual.

Em outro caso, um cão sem raça definida, de 15 anos, recebeu enxertos para reparar lesões na córnea e na pálpebra. O animal apresentou melhora clínica e recebeu alta após 31 dias de acompanhamento.

A técnica também começou a ser aplicada em gatos. Em junho de 2023, Mirza Melo informou à Agência UFC que aproximadamente dez felinos haviam sido operados com sucesso.

Cães de focinho curto, como pugs, buldogues e shih-tzus, estão entre os animais mais suscetíveis a lesões corneanas, devido à maior exposição dos olhos.

Tratamento não recupera todos os tipos de cegueira

Apesar dos resultados, a técnica não significa que qualquer cão ou gato cego possa voltar a enxergar.

O enxerto atua principalmente na reparação da córnea, a camada transparente localizada na parte frontal do olho. Lesões graves nessa estrutura podem comprometer a visão, e sua cicatrização pode permitir uma recuperação parcial ou significativa da capacidade visual.

A própria UFC esclareceu que o procedimento não havia sido testado para problemas como descolamento de retina ou outras alterações internas do olho.

Também não existem evidências suficientes para afirmar que a técnica restaura a visão perdida por todas as causas de cegueira, nem estudos comparativos robustos que quantifiquem uma eventual redução do risco de rejeição.

Em abril de 2026, um estudo sobre a presença de bactérias em úlceras corneanas tratadas com o enxerto relatou ausência de crescimento bacteriano detectável após 20 dias de tratamento, acompanhado de antibioticoterapia tópica. Os autores destacaram a necessidade de pesquisas com mais animais.

Uma revisão científica apresentada à UFC em 2026 reuniu 29 trabalhos sobre aplicações veterinárias da pele de tilápia. A análise identificou resultados favoráveis na cicatrização de feridas e no tratamento de lesões oculares, mas também limitações importantes.

Segundo os autores, muitos estudos ainda envolvem poucos animais e utilizam metodologias diferentes, o que dificulta comparações e a definição de protocolos padronizados.

Por isso, embora os enxertos já tenham sido utilizados em procedimentos veterinários, ainda são necessários estudos clínicos maiores para estabelecer sua eficácia comparativa, segurança a longo prazo e condições de utilização rotineira em clínicas veterinárias.

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