Moradores usam faróis de veículos para iluminar pista e permitir resgate no Alasca
Na noite de 28 de agosto de 2020, moradores de Igiugig, uma vila remota do sudoeste do Alasca, nos Estados Unidos, iluminaram com os faróis de seus veículos a pista de um aeroporto para permitir o pouso de um avião de resgate. A aeronave precisava retirar uma menina doente e levá-la a Anchorage, onde receberia atendimento médico. A iluminação do aeroporto não estava funcionando quando a equipe chegou.
A empresa LifeMed Alaska enviou de Kodiak um avião King Air, em um voo que normalmente levava cerca de 30 minutos até a comunidade. Quando chegou, depois das 23h, o piloto encontrou a pista às escuras e começou a sobrevoar a região, segundo a reportagem original de Rashah McChesney para a rádio pública KTOO, publicada no dia seguinte.
Os telefonemas que mobilizaram a vila
Ida Nelson, moradora de Igiugig, acabava de sair de um banho de vapor quando ouviu o avião passando sobre as casas. Como podia enxergar o aeroporto dali, percebeu que as luzes da pista não estavam funcionando. Ela saiu em um quadriciclo e foi até o local.
Uma vizinha começou a telefonar para outras famílias, pedindo que levassem veículos com faróis. Nelson contou à KTOO que foram feitas 32 ligações, um número próximo da quantidade de residências da pequena comunidade. Muita gente apareceu de pijama, depois de ser acordada.
Em discurso no Senado dos Estados Unidos, em 17 de setembro de 2020, o senador pelo Alasca Dan Sullivan identificou a responsável por aproximadamente 32 chamadas como Christina Salmon. Ele também citou Karl Hill, administrador tribal e piloto local, que tentou acionar as luzes e, sem sucesso, usou o rádio de seu próprio avião para falar com o piloto da LifeMed.
Segundo o relato apresentado por Sullivan, o piloto da equipe médica avisou que estava com pouco combustível e não poderia continuar circulando sobre o aeroporto por muito tempo. Trata-se de uma informação relatada pelo senador, sem detalhamento técnico sobre a quantidade de combustível disponível.
Como os veículos iluminaram o pouso
Carros, caminhonetes e quadriciclos foram posicionados ao longo da pista, com seus faróis voltados para a área de pouso. Os participantes se comunicavam por telefone e rádio enquanto o avião permanecia no ar.
De acordo com Nelson, o tempo estava calmo. Os veículos ficaram distribuídos por toda a extensão da pista, permitindo que o piloto distinguisse seus limites. Um profissional de saúde pediu aos moradores que não saíssem das posições quando a aeronave tocasse o solo.
A operação funcionou. O avião pousou, recebeu a paciente e voltou a decolar, ainda com os veículos iluminando o trajeto. Sullivan afirmou que a partida ocorreu entre aproximadamente 1h30 e 2h da madrugada, já no dia 29.
A KTOO publicou uma fotografia de Ida Nelson mostrando os veículos alinhados na pista. A própria LifeMed Alaska também divulgou uma imagem registrada durante a operação, de acordo com a emissora.
A falha na iluminação e o destino da menina
O aeroporto de Igiugig era administrado pelo governo estadual. À KTOO, o porta-voz do Departamento de Transportes do Alasca, Sam Dapcevich, explicou que equipes haviam visitado a instalação três vezes em 2020 para tentar solucionar problemas na iluminação.
Na visita realizada na terça-feira anterior ao resgate, técnicos encontraram fiação com defeito e luzes danificadas pela passagem de veículos, parte delas durante trabalhos de manutenção no inverno. Dapcevich disse que uma avaria na fiação podia desligar todo o conjunto e que novas intervenções estavam previstas. O relato não comprova quando os reparos foram concluídos.
O isolamento ajuda a explicar a importância do aeroporto. Sullivan estimou cerca de 70 moradores permanentes em Igiugig e afirmou que centenas de comunidades do Alasca não têm ligação por estradas. No Brasil, a situação encontra paralelo em localidades da Amazônia: a Funai registra o uso de pistas isoladas para remoções médicas de emergência, sob regras específicas de operação.
O caso também teve um reconhecimento posterior. Em maio de 2021, a Cruz Vermelha do Alasca homenageou Ida Nelson com o prêmio Real Heroes, na categoria de segurança, segundo a rádio regional KDLG.
Quanto à paciente, Sullivan afirmou em 17 de setembro de 2020 que a menina já tinha retornado à comunidade e se recuperado. A documentação consultada não informa o diagnóstico nem o hospital que realizou seu tratamento.
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