Uma jovem de 16 anos entrou em uma casa no interior da Inglaterra em 1995 acreditando que teria abrigo e algum tipo de convivência familiar. O que se seguiu, segundo a Justiça britânica, foi um período de 25 anos de isolamento, violência constante e trabalho forçado, longe de qualquer contato regular com o mundo exterior.
O caso veio à tona em Gloucester e foi analisado pela Gloucester Crown Court. A vítima, hoje adulta, permaneceu na residência até 2021 sem acesso a médicos, dentistas ou serviços sociais. Não há registros hospitalares ou consultas médicas ao longo de duas décadas, o que reforçou a tese de que ela era impedida de sair da casa.
Segundo o processo, a mulher foi submetida a agressões físicas frequentes. Relatos descrevem que ela era atingida com uma vassoura, tinha produtos de limpeza lançados no rosto e chegou a ter detergente espremido diretamente em sua garganta. Em outro episódio, teve a cabeça raspada contra a própria vontade. A alimentação era controlada, e o espaço onde dormia foi descrito por policiais como semelhante a uma cela.
Anos de isolamento dentro de uma casa
Durante todo esse período, a jovem foi obrigada a trabalhar diariamente cuidando da casa e dos filhos da proprietária do imóvel. Ela realizava tarefas domésticas de forma compulsória, sob ameaças e violência. A promotoria afirmou que não havia liberdade de escolha nem possibilidade real de sair da residência em Tewkesbury.
A mulher que trabalhava como “escrava doméstica” foi encontrada pela polícia em 15 de março de 2021, depois que um dos filhos de Wixon expressou preocupação (Polícia de Gloucestershire).
Em depoimento à polícia, a vítima disse: “Eu não quero estar aqui. Não me sinto segura. Mandy me bate o tempo todo. Eu não gosto disso.” Em outro trecho, relatou a falta de higiene forçada: “Eu não me lavo há anos. Ela não deixa.”
As condições de saúde também se deterioraram com o tempo. A mulher perdeu a maior parte dos dentes, algo atribuído à ausência completa de cuidados básicos e acompanhamento médico. Para os investigadores, o desaparecimento total de qualquer registro oficial ao longo de cerca de 20 anos indicava um confinamento contínuo e deliberado.
O promotor Sam Jones afirmou ao júri que a vítima foi mantida dentro da casa, impedida de sair, agredida repetidamente e forçada a trabalhar sob ameaça de violência. Ele destacou que, a partir do fim dos anos 1990, não existe qualquer indício documentado de que ela tenha tido contato com instituições públicas ou sido vista fora da residência.
Denúncia familiar e reação da comunidade
O esquema só foi interrompido quando um dos filhos da acusada procurou a polícia e relatou o que acontecia dentro da casa. A partir disso, as autoridades iniciaram a investigação que levou à denúncia formal.
A proprietária do imóvel, Amanda Wixon, de 56 anos, negou as acusações de cárcere privado, trabalho forçado e agressões. Mesmo assim, o júri a considerou culpada da maioria das acusações, com exceção de uma das imputações de agressão.
Wixon respondeu “não muito” quando questionada se tinha algo a dizer à vítima fora do tribunal (Polícia de Gloucestershire).
Questionada fora do tribunal sobre o que teria a dizer à vítima, respondeu apenas: “Não muita coisa”. A declaração causou indignação entre moradores da região.
Uma ex-vizinha, que cresceu ao lado da família, afirmou após a audiência: “Ela merecia a prisão. Pode apodrecer lá. Boa sorte para ela na cadeia.” Segundo a moradora, a sentença era esperada e justa diante da gravidade do que veio a público.
Apesar da condenação, Amanda Wixon foi liberada sob fiança condicional e aguarda a sentença definitiva, marcada para 12 de março. A vítima, agora fora da casa onde viveu confinada por décadas, passa a reconstruir a própria vida após um longo período de invisibilidade forçada.