IA pode melhorar notas nas tarefas e prejudicar o desempenho em provas, apontam estudos

📅 24/10/2026 👁️ 3 visualizações 🏷️ Psicologia
Estudante utilizando inteligência artificial no computador enquanto estuda com livros e cadernos sobre a mesa.

Em 22 de outubro de 2026, o pesquisador Luke Rowe, da Australian Catholic University, em Melbourne, na Austrália, alertou que estudantes podem prejudicar o próprio aprendizado quando utilizam inteligência artificial para realizar tarefas escolares sem desenvolver os conhecimentos necessários. A análise, apresentada em um artigo divulgado pelo Phys.org, reúne pesquisas que identificaram uma diferença entre conseguir boas notas com auxílio da tecnologia e demonstrar conhecimento sem essa ajuda.

Rowe é autor de um trabalho publicado em 13 de agosto de 2026 na revista científica Education Sciences. Nele, o pesquisador propõe que estudantes aprendam inicialmente determinados conteúdos por conta própria e utilizem ferramentas de IA de maneira progressiva, conforme desenvolvam suas habilidades.

A preocupação central é que sistemas capazes de resolver exercícios, escrever redações e explicar conceitos também podem permitir que alunos concluam atividades sem compreender o conteúdo. Essa dependência pode produzir resultados aparentemente satisfatórios nas tarefas, mas não necessariamente se traduz em aprendizado duradouro.

Estudo com mais de 26 mil estudantes encontrou queda nas notas

Uma das pesquisas citadas por Rowe foi realizada por David Stromberg, Victor Lei e Yanhui Wu, que analisaram dados de 26.811 estudantes chineses do ensino fundamental e médio.

O estudo, divulgado em junho de 2026, utilizou registros coletados durante 30 meses, incluindo notas de tarefas, tempo gasto nos exercícios e resultados de provas realizadas sem consulta.

Os pesquisadores identificaram que a adoção de inteligência artificial estava associada a um aumento de 18% nas notas dos deveres de casa. Ao mesmo tempo, o tempo necessário para completar as atividades diminuiu 30%.

O resultado mudou quando os estudantes precisaram demonstrar seus conhecimentos sem auxílio tecnológico. Segundo a análise, as notas nas avaliações mensais caíram aproximadamente 20% em um período de seis meses após a adoção da IA.

Os autores também encontraram resultados inferiores em exames de ingresso em etapas posteriores da educação. As perdas foram maiores entre estudantes cujos padrões de utilização sugeriam que a tecnologia estava realizando parte substancial das tarefas.

A pesquisa chinesa foi disponibilizada como pré-publicação e utiliza uma análise observacional. Seus resultados são relevantes, mas não demonstram que todos os estudantes sofrerão prejuízos semelhantes nem permitem eliminar completamente outros fatores que possam ter influenciado as notas.

Experimento mostrou diferença entre receber respostas e aprender

Outra investigação, publicada em junho de 2025 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), apresentou resultados semelhantes em um experimento controlado.

Os pesquisadores acompanharam quase mil estudantes do ensino médio em uma escola da Turquia, durante atividades de matemática. Os participantes foram distribuídos entre grupos que estudavam sem IA, utilizavam um chatbot convencional ou recebiam ajuda de um sistema configurado para oferecer orientações sem entregar imediatamente as respostas.

Durante os exercícios, o grupo que utilizava o chatbot convencional apresentou desempenho 48% superior ao dos estudantes sem IA. Já aqueles que usavam a versão desenvolvida especificamente para ensinar registraram desempenho 127% superior.

Entretanto, quando os participantes fizeram avaliações sem auxílio tecnológico, os resultados mudaram.

Os estudantes que utilizaram o chatbot convencional tiveram notas 17% inferiores às do grupo que estudou sem inteligência artificial. Entre aqueles que receberam orientações graduais, essa diferença negativa praticamente desapareceu.

O estudo publicado na PNAS sugere que a maneira como a ferramenta responde influencia o aprendizado. Sistemas que entregam soluções prontas podem reduzir o esforço necessário para compreender um problema, enquanto aqueles que oferecem pistas estimulam maior participação do estudante.

Os próprios pesquisadores destacaram limitações: o experimento ocorreu em uma única escola, concentrou-se em matemática e avaliou resultados de curto prazo. Não é possível aplicar automaticamente seus percentuais a todas as disciplinas ou ferramentas atuais.

Como usar inteligência artificial sem comprometer os estudos

Com base nas evidências disponíveis, Luke Rowe propõe um modelo de utilização gradual da IA, dividido em três etapas.

Na primeira, o aluno desenvolve conhecimentos fundamentais sem depender da tecnologia. Isso envolve resolver problemas, recordar informações e elaborar explicações utilizando o próprio raciocínio.

Na segunda, a inteligência artificial passa a funcionar como ferramenta de apoio. Ela pode identificar erros, sugerir melhorias em textos, apresentar explicações alternativas e formular perguntas para testar a compreensão do conteúdo.

Na terceira, estudantes que já dominam determinado assunto podem delegar tarefas específicas à tecnologia, mantendo a responsabilidade de verificar os resultados e reconhecer possíveis erros.

Para brasileiros que se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a distinção tem uma aplicação prática. Segundo as orientações oficiais do Inep, celulares e outros dispositivos eletrônicos precisam permanecer desligados e guardados durante a avaliação.

Rowe recomenda que simulados reproduzam essas condições, sem consultas à inteligência artificial, para que os estudantes consigam avaliar o que realmente aprenderam.

O pesquisador também sugere utilizar a IA para criar questões progressivamente mais difíceis ou oferecer comentários sobre respostas já elaboradas pelo aluno, em vez de simplesmente produzir o trabalho completo.

O modelo apresentado por Rowe ainda precisa ser testado diretamente em diferentes contextos educacionais. As pesquisas disponíveis indicam riscos associados à dependência de respostas prontas, mas também mostram que ferramentas configuradas para orientar o raciocínio podem evitar parte dos prejuízos observados.

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