A história de Erfan Soltani ganhou atenção internacional após uma reviravolta inesperada em um caso que parecia ter um desfecho já definido. O jovem iraniano de 26 anos, comerciante em Karaj, estava com execução marcada para o dia 14 de janeiro, depois de ter sido condenado à morte por participar de um protesto ocorrido em Fardis, distrito da cidade, no dia 8 do mesmo mês.
A condenação de Soltani aconteceu em meio a uma onda de repressão que se intensificou no Irã desde dezembro, quando manifestações se espalharam pelo país após a forte desvalorização do rial. A crise econômica levou milhares de pessoas às ruas, exigindo mudanças políticas e melhores condições de vida. Segundo dados divulgados por organizações de direitos humanos, mais de 18.100 pessoas foram detidas desde o início dos protestos, enquanto mais de 2.400 manifestantes teriam morrido em confrontos ou sob custódia estatal.
Soltani se tornou o primeiro manifestante a receber oficialmente uma sentença de morte desde o início dessa nova fase de protestos. A decisão judicial foi vista por ativistas como um sinal claro de intimidação, com o objetivo de conter novos atos. O próprio chefe do Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni-Ejei, reforçou esse entendimento ao declarar na televisão estatal que punições rápidas teriam maior impacto. “Se quisermos fazer algo, temos que fazer agora. Se atrasar dois ou três meses, não tem o mesmo efeito”, afirmou.
Dias antes da data prevista para a execução, a família de Soltani recebeu autorização para uma breve visita na prisão, algo comum em casos desse tipo. A expectativa era de que a execução ocorresse nas primeiras horas da manhã, período em que as autoridades costumam realizar enforcamentos, geralmente próximos ao horário das orações matinais. Parentes e amigos passaram a noite em vigília, aguardando notícias.
Horas depois do momento esperado para a execução, veio uma ligação inesperada das autoridades penitenciárias. A família foi informada de que a execução havia sido adiada, sem qualquer explicação adicional ou nova data definida. O adiamento não significou absolvição nem revisão da sentença, mas foi interpretado como uma rara pausa em um processo que costuma avançar rapidamente.
Antes dessa atualização, Somayeh, parente próxima de Soltani, falou ao jornal The Guardian sobre o desespero da família. “Falei com eles ontem e tudo o que sei é que estavam tentando visitá-lo na prisão. Não dormi há dois dias”, disse. Em outro momento, emocionada, questionou: “Como alguém pode ter coragem de colocar uma corda no pescoço de um jovem tão gentil e mandá-lo para a morte?”.
O caso também ganhou dimensão internacional após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista à emissora CBS, ele afirmou que o governo americano tomaria “medidas muito duras” caso manifestantes pacíficos fossem executados no Irã. “Não queremos ver o que está acontecendo no Irã. Quando começam a matar milhares de pessoas e agora falam em enforcamentos, vamos ver como isso funciona para eles. Não vai acabar bem”, declarou.
Trump voltou ao tema em publicações na plataforma Truth Social, onde alertou que autoridades iranianas pagariam “um preço alto” se as execuções continuassem. Ele também incentivou os manifestantes a manterem a mobilização, o que foi interpretado por alguns familiares de presos como um sinal de apoio político internacional.
Somayeh afirmou que muitos iranianos foram às ruas confiando nesse tipo de posicionamento externo. “A população desarmada acreditou nessas palavras e agora está sob fogo. Imploro que não deixem Erfan ser executado”, disse, reforçando que o jovem não teria recorrido à violência durante os protestos.
De acordo com a Hengaw Organization for Human Rights, Soltani foi detido sem acesso adequado a um advogado e sem garantias de defesa legal. A organização também alerta que o caso pode não ser isolado. Devido a bloqueios frequentes de internet no país, outras condenações semelhantes podem estar ocorrendo sem chegar ao conhecimento da comunidade internacional.
Apesar do adiamento, o futuro de Erfan Soltani permanece incerto. Não há confirmação oficial de que a sentença será revista ou anulada, e organizações de direitos humanos continuam monitorando o caso com cautela, diante do histórico recente de repressão e da falta de transparência das autoridades iranianas.