Golfinhos reconhecem assobios de antigos companheiros após mais de 20 anos
Um estudo conduzido em 2013 pelo pesquisador Jason Bruck, então ligado à Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, mostrou que golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) conseguem reconhecer o assobio de antigos companheiros após mais de 20 anos separados. O trabalho envolveu animais mantidos em instituições nos Estados Unidos e nas Bermudas e foi publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B.
A constatação veio de testes com gravações reproduzidas debaixo d’água. Os golfinhos reagiram de maneira significativamente mais intensa quando ouviam sons de animais com os quais haviam convivido do que diante de assobios de desconhecidos. Não houve reencontro presencial entre os antigos companheiros.
Assobios funcionam como sinais de identificação
Golfinhos-nariz-de-garrafa desenvolvem um padrão próprio de assobio, conhecido como assobio-assinatura. O som apresenta características individuais que permitem distinguir um animal dos demais. Diferentemente de um ruído produzido ao acaso, essa vocalização pode permanecer estável durante muitos anos.
A comparação com nomes humanos tem respaldo em outro estudo publicado em 2013, de Stephanie King e Vincent Janik, da Universidade de St. Andrews, na Escócia. Os cientistas reproduziram cópias de assobios para golfinhos selvagens e verificaram que eles respondiam quando ouviam o próprio sinal, mas não apresentavam a mesma reação a outros assobios.
Esses resultados indicam que os sons podem servir para identificar e dirigir chamados a indivíduos específicos. Isso, porém, não demonstra que os golfinhos compreendam nomes da mesma forma que os seres humanos.
Como os pesquisadores testaram a memória
Bruck estudou a resposta de 43 golfinhos em seis instalações participantes de um programa de reprodução que transferia animais entre diferentes locais. Os registros históricos permitiam descobrir quais indivíduos haviam vivido juntos e há quanto tempo estavam separados. As idades dos participantes variavam de quatro meses a 47 anos.
Para reduzir a possibilidade de que a reação fosse causada simplesmente por um som novo, o pesquisador apresentava primeiro assobios de golfinhos desconhecidos até o animal testado deixar de demonstrar interesse.
Em seguida, reproduzia o chamado de um antigo companheiro e comparava a reação com a provocada por um assobio desconhecido de um golfinho da mesma idade e sexo.
As respostas foram medidas por comportamentos como virar a cabeça, aproximar-se do alto-falante submerso ou permanecer perto dele. O estudo científico original reuniu mais de 250 sessões experimentais e 1.200 reproduções de sons, incluindo as etapas preparatórias.
Os resultados mostraram diferenças estatisticamente significativas entre sons familiares e desconhecidos. O tempo de separação não apresentou efeito significativo sobre o reconhecimento, inclusive nos grupos separados havia pelo menos 15 anos.
Bailey e Allie ficaram separadas por duas décadas
Um dos episódios descritos pela Universidade de Chicago envolveu duas fêmeas chamadas Bailey e Allie. Elas haviam convivido no Dolphin Connection, nas ilhas Florida Keys, quando Bailey tinha quatro anos e Allie tinha dois.
Depois, foram transferidas para instituições diferentes. No período da pesquisa, Bailey vivia nas Bermudas, enquanto Allie estava no Brookfield Zoo, próximo de Chicago. O intervalo desde a última convivência chegava a 20 anos e seis meses.
Quando Bruck reproduziu o assobio de Allie, Bailey apresentou uma resposta compatível com o reconhecimento de um som familiar.
A conclusão se baseia nessa reação ao áudio, não em uma observação direta de que a golfinha se lembrava de acontecimentos específicos vividos com a antiga companheira.
O que ainda não se sabe sobre essa memória
Segundo Bruck, a pesquisa forneceu, à época, a evidência experimental mais longa de reconhecimento social entre indivíduos não humanos que não dependiam de parentesco. Os dados também indicaram que o reconhecimento não estava restrito a machos, fêmeas ou animais que haviam convivido durante muitos anos.
Uma possível explicação envolve a organização social dos golfinhos, que formam grupos, se separam e voltam a encontrar outros indivíduos ao longo da vida. Guardar informações sobre parceiros anteriores poderia ajudar em encontros posteriores.
O estudo, contudo, não comprovou que essa dinâmica seja a causa da capacidade de memória.
No Brasil, a mesma espécie ocorre no litoral. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade registra a presença frequente de golfinhos-nariz-de-garrafa no Refúgio de Vida Silvestre da Ilha dos Lobos, no Rio Grande do Sul, onde procuram cardumes de peixes.
Como os experimentos de Bruck foram feitos com animais sob cuidados humanos, a duração do reconhecimento social em populações selvagens ainda precisa ser testada diretamente. Também não foi possível determinar se ouvir um assobio familiar provoca uma representação mental detalhada do companheiro ausente.
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