Filho de agricultores do Piauí se formou médico aos 25 anos após trabalhar na roça
O piauiense Luciano Carlos da Silva Sousa, filho de agricultores da comunidade rural Caatinga Branca, em Valença do Piauí, concluiu o curso de Medicina da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) aos 25 anos, em maio de 2016. Antes de chegar à universidade, ele dividia o tempo entre os estudos e o trabalho na agricultura, atividade que começou a acompanhar aos sete anos. A trajetória foi documentada em entrevista concedida ao UOL em agosto de 2016.
Natural de uma família de trabalhadores rurais, Luciano cresceu ajudando os pais no cultivo de hortaliças e legumes. As dificuldades financeiras acompanharam sua infância, mas não interromperam sua formação escolar. Anos depois, ele conseguiria ingressar em uma das graduações mais concorridas do país.
Infância na roça e estudos em escolas públicas
Luciano começou a frequentar a escola aos seis anos, na Unidade Escolar Ulisses Vale Veloso, localizada na zona rural de Valença do Piauí, município situado a aproximadamente 216 quilômetros de Teresina.
Aos sete anos, passou a acompanhar o pai nas atividades agrícolas. Em entrevista ao jornalista Carlos Madeiro, do UOL, explicou que, inicialmente, realizava apenas tarefas compatíveis com sua idade. Entre os dez e os 12 anos, já participava de praticamente todas as atividades do roçado.
Ele concluiu o ensino fundamental na escola rural e precisou se deslocar até a zona urbana para cursar o ensino médio, na Unidade Escolar Maria Antonieta. As aulas aconteciam no período noturno.
A situação financeira da família exigia esforços dos pais para manter os filhos estudando. Sua mãe, Ivanir Luiza da Silva, vendia produtos agrícolas, como pimenta, cebolinha e coentro, para ajudar nas despesas escolares.
Em reportagem da Rede Meio Norte, a mãe relatou que chegou a deixar de comprar determinados alimentos para adquirir livros para o filho.
Luciano concluiu o ensino médio em 2008, mas não conseguiu aprovação imediata em Medicina. Durante o ano seguinte, estudou principalmente em casa, utilizando apostilas e livros. Também frequentou cursos preparatórios por períodos limitados.
Aprovação em Medicina e ajuda financeira para continuar estudando
No final de 2009, Luciano foi aprovado pelo sistema de cotas no vestibular de Medicina da Uespi, para ingresso em 2010, quando tinha 19 anos.
Segundo reportagens da época que citavam a Pró-Reitoria de Graduação da universidade, ele foi o primeiro estudante oriundo de uma escola pública da zona rural de Valença do Piauí a conquistar uma vaga no curso.
A aprovação, entretanto, trouxe uma preocupação: como permanecer durante seis anos em Teresina sem possuir recursos suficientes para alimentação, moradia, transporte e materiais acadêmicos.
Em janeiro de 2010, a Secretaria de Estado da Educação do Piauí anunciou medidas de apoio ao estudante. Conforme comunicado da Seduc reproduzido pelo Portal V1, Luciano recebeu uma bolsa mensal equivalente a um salário mínimo e a previsão de uma ajuda anual de R$ 1 mil para comprar livros.
O governo estadual também entregou um notebook ao jovem. Outras instituições e pessoas contribuíram para sua permanência na capital.
Durante a graduação, Luciano contou com assistência financeira dos pais, de uma entidade filantrópica e de estágios remunerados. Amigos e colegas também colaboraram com doações de livros e apostilas.
Na entrevista de 2016, ele reconheceu que o apoio recebido foi fundamental para conseguir concluir a universidade. Mesmo com as dificuldades econômicas, tornou-se representante de turma durante boa parte da graduação.
A conclusão oficial do curso ocorreu em 10 de maio de 2016. As comemorações de formatura foram realizadas no final de julho daquele ano.
Da graduação à especialização em cardiologia
Depois de obter o diploma, Luciano começou a trabalhar em uma Unidade Básica de Saúde de Teresina e a realizar plantões em hospitais da capital piauiense.
Na época, ainda utilizava transporte público para chegar ao trabalho e pretendia ingressar em um programa de residência médica. Entre suas possibilidades estavam otorrinolaringologia, clínica médica e cardiologia.
A carreira posterior pode ser acompanhada por registros acadêmicos e profissionais.
Segundo informações de seu currículo Lattes, reproduzidas pelo Escavador, Luciano realizou residência em Clínica Médica entre 2019 e 2021 e, posteriormente, em Cardiologia, entre 2021 e 2023. Ambas as formações ocorreram no Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI).
A participação no programa de Cardiologia é confirmada por uma lista oficial de médicos residentes publicada pela UFPI em 2021, na qual seu nome aparece entre os profissionais do primeiro ano da especialização.
Sua atuação na área também consta no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde, que o identifica como médico cardiologista vinculado ao Núcleo de Telessaúde do Piauí.
Outro registro oficial do CNES relaciona Luciano à equipe de Saúde da Família do estabelecimento Joaquim Pereira dos Santos, em Ipiranga do Piauí, com entrada registrada em outubro de 2024.
Os dados documentam sua continuidade na medicina, embora os cadastros profissionais, isoladamente, não confirmem sua agenda atual de atendimentos.
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