Cientistas descobrem desenvolvimento cerebral único que existe apenas em pessoas que jogaram Pokémon quando crianças

📅 06/04/2026 👁️ 4 visualizações 🏷️ Ciência

A ciência acaba de dar um novo significado para as horas que você passou grudado na tela do Game Boy durante a infância. Se os seus pais reclamavam que o tempo gasto tentando capturar todos os monstrinhos era um desperdício, pesquisadores da Universidade de Stanford descobriram que essa atividade pode ter moldado a estrutura física do seu cérebro de uma maneira permanente e única.

O estudo publicado na revista Nature Human Behavior revela que adultos que jogaram Pokémon intensamente quando eram crianças desenvolveram uma região cerebral específica para armazenar informações sobre os personagens. Essa área dedicada responde de forma preferencial e imediata sempre que a pessoa vê um Pikachu, um Bulbasauro ou qualquer um das centenas de criaturas da franquia.

A organização funcional do córtex visual humano costuma ser muito consistente entre as pessoas, especialmente em regiões que identificam rostos ou lugares. O que os cientistas queriam entender era como o cérebro decide onde colocar novas categorias de informação. O universo de Pokémon ofereceu o cenário perfeito para esse teste, já que as crianças jogavam a uma distância muito semelhante da tela e eram expostas repetidamente aos mesmos estímulos visuais.

A formação de um novo mapa cerebral

Os pesquisadores utilizaram ressonância magnética funcional para monitorar a atividade cerebral de adultos que eram jogadores experientes desde os cinco anos de idade. Quando esses voluntários viam imagens dos monstrinhos, uma dobra específica no cérebro, chamada sulco occipitotemporal, mostrava uma ativação intensa que não ocorria no grupo de controle, composto por pessoas que não tiveram contato com o jogo na infância.

Jogar Pokémon com frequência quando se é mais jovem leva o cérebro a criar um espaço específico para armazenar essas informações.

Jogar Pokémon com frequência quando se é mais jovem leva o cérebro a criar um espaço específico para armazenar essas informações.

“O que era único em Pokémon é que existem centenas de personagens e você precisa saber tudo sobre eles para jogar o jogo com sucesso”, explica Jesse Gomez, o autor principal do estudo. Ele mesmo foi um jogador ávido e usou sua própria experiência para formular a hipótese da pesquisa. Segundo Gomez, “o jogo recompensa você por individualizar centenas desses pequenos personagens de aparência semelhante”.

A localização dessa nova região não é aleatória. Ela se desenvolveu no mesmo ponto em quase todos os jogadores porque o cérebro processa imagens que ocupam apenas o centro da nossa visão, como a tela de um console portátil, de uma forma específica. Isso sugere que a maneira como olhamos para as coisas durante o crescimento dita como o cérebro se organiza fisicamente.

A vantagem da especialização visual

Essa descoberta coloca Pokémon em um grupo seleto de categorias que o cérebro humano decide tratar com exclusividade. Normalmente, o órgão reserva áreas específicas apenas para rostos, palavras, números ou lugares. Ver que uma marca de videogame conseguiu criar seu próprio território neural é um marco para a neurociência moderna.

“Nós mostramos não apenas que adultos que têm experiência com Pokémon demonstram respostas corticais distribuídas distintas para os personagens, mas também que a excentricidade retinal experimentada durante a infância pode prever o local das respostas em adultos”, afirma o texto do estudo. Isso significa que a biologia humana é maleável o suficiente para se adaptar a estímulos culturais complexos de forma profunda.

A pesquisa indica que o cérebro é capaz de criar gavetas extras para informações que exigem alta distinção visual. Jesse Gomez reforça que, se o cérebro não criasse uma região para centenas de personagens tão parecidos e cheios de detalhes, “então isso nunca aconteceria para mais nada”. Até agora, poucas propriedades que não envolvem nomes ou rostos reais demonstraram possuir tal distinção na anatomia cerebral.