Pesquisadores espanhóis anunciaram um avanço relevante no tratamento do câncer de pâncreas ao conseguirem eliminar completamente tumores da doença em testes com camundongos. O trabalho foi conduzido por uma equipe do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas da Espanha, o CNIO, e os resultados foram publicados na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.
O câncer de pâncreas é considerado um dos mais agressivos da medicina. Menos de 10 por cento das pessoas diagnosticadas sobrevivem mais de cinco anos após a descoberta da doença. Nos Estados Unidos, o tipo mais comum, o adenocarcinoma ductal pancreático, atinge dezenas de milhares de pessoas por ano e apresenta altas taxas de mortalidade, mesmo com os tratamentos atualmente disponíveis.
A nova pesquisa foi liderada por Mariano Barbacid, cientista espanhol reconhecido internacionalmente por ter participado da identificação do primeiro oncogene humano, um tipo de mutação genética associada ao desenvolvimento do câncer. Desta vez, o foco do grupo foi o oncogene KRAS, alterado em cerca de 90 por cento dos casos de câncer de pâncreas.
O estudo observou redução de tumores em ratos.
O desafio histórico do gene KRAS
Durante décadas, o gene KRAS foi considerado um alvo extremamente difícil para terapias oncológicas. Tentativas anteriores de bloqueá-lo até mostraram algum efeito inicial, mas os tumores costumavam se tornar resistentes em poucos meses, voltando a crescer mesmo após a aplicação dos medicamentos.
Segundo os pesquisadores, o problema está na capacidade de adaptação das células tumorais. Quando apenas um ponto do mecanismo é bloqueado, o câncer encontra caminhos alternativos para sobreviver. Isso levou a equipe espanhola a adotar uma estratégia diferente, baseada na combinação de múltiplas abordagens ao mesmo tempo.
A team of scientists from the Spanish Cancer Research Centre, led by the renowned Dr Mariano Barbacid, has achieved the complete and permanent disappearance of pancreatic cancer in experimental models.
This discovery could make a difference in the fight against this disease. 👏 pic.twitter.com/gcnn1hPKBk
— Embassy of Spain UK (@EmbSpainUK) January 28, 2026
O novo método utiliza um coquetel de três medicamentos distintos, cada um atuando em um ponto diferente da via molecular controlada pelo KRAS. Com isso, o tumor encontra mais dificuldade para desenvolver resistência ao tratamento.
Resultados observados nos testes
Nos experimentos com camundongos, os cientistas observaram a regressão progressiva dos tumores até sua eliminação completa. De acordo com os dados apresentados no estudo, o desaparecimento do câncer foi permanente e não houve efeitos colaterais relevantes nos animais tratados.
No artigo científico, os autores afirmaram que esses estudos abrem caminho para o desenho de novas terapias combinadas capazes de melhorar a sobrevivência de pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático. Eles também apontaram que os resultados oferecem uma base sólida para o desenvolvimento de novos ensaios clínicos no futuro.
A repercussão do avanço ultrapassou o meio acadêmico. A Embaixada da Espanha no Reino Unido divulgou a descoberta em uma publicação oficial, destacando que a equipe liderada por Mariano Barbacid conseguiu alcançar o desaparecimento completo e permanente do câncer de pâncreas em modelos experimentais, algo nunca obtido anteriormente.
Apesar do entusiasmo, os próprios pesquisadores adotam cautela. Em um comunicado, Barbacid explicou que, embora os resultados sejam inéditos e extremamente promissores, ainda não é possível iniciar testes clínicos com a terapia tripla em humanos. Ele ressaltou que transformar esse avanço experimental em um tratamento seguro e eficaz exigirá tempo, novos estudos e etapas rigorosas de validação.
Os autores do estudo também reconhecem que a aplicação em pessoas não será simples, mas avaliam que a descoberta pode abrir novas opções terapêuticas para melhorar os resultados clínicos de pacientes com câncer de pâncreas em um futuro próximo.