Arqueólogos identificam cão sem pelos mumificado há cerca de 1.200 anos no Peru

📅 24/10/2026 👁️ 3 visualizações 🏷️ História
Representação de um crânio de cão mumificado com pele preservada sobre uma mesa de pesquisa arqueológica.

Uma equipe internacional de arqueólogos identificou restos de cães sem pelos que viveram há aproximadamente 1.200 anos no litoral do Peru, incluindo um animal quase completamente mumificado. Os resultados foram publicados em 2026, após análises de materiais encontrados durante escavações no complexo arqueológico Castillo de Huarmey, associado à civilização Wari, que ocupou parte dos Andes séculos antes da formação do Império Inca.

A descoberta foi apresentada na revista científica Journal of Anthropological Archaeology, em uma pesquisa liderada por Weronika Tomczyk, da Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos, com a participação de pesquisadores das universidades de Varsóvia, na Polônia, e Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores examinaram 341 vestígios ósseos, associados a pelo menos 20 cães, considerando também um exemplar mumificado analisado separadamente. Entre os materiais estavam crânios, ossos de filhotes e animais adultos preservados pelas condições extremamente secas da região.

Uma múmia preservada por mais de um milênio

Castillo de Huarmey fica na região de Áncash, aproximadamente 300 quilômetros ao norte de Lima. O complexo funcionou como centro administrativo e funerário da civilização Wari, cuja presença na região se estendeu aproximadamente entre os anos 600 e 1050 d.C.

Durante as escavações, iniciadas em 2010, os arqueólogos encontraram o esqueleto naturalmente mumificado de um cão macho. O corpo estava quase completo, faltando apenas as partes inferiores das patas dianteiras.

A datação por radiocarbono de um osso do animal apontou para um período entre 688 e 870 d.C. Segundo os pesquisadores, essa é a datação por radiocarbono mais antiga obtida até agora no sítio arqueológico.

Outro achado foi um crânio que ainda conservava partes da pele e as orelhas. Sua superfície apresentava cinábrio, um pigmento mineral vermelho utilizado em práticas funerárias de antigas sociedades andinas.

Conforme explicou a Universidade de Dartmouth, a preservação desses materiais ocorreu naturalmente. O deserto costeiro peruano apresenta condições de aridez que dificultam a decomposição de tecidos orgânicos, permitindo que pele e outros vestígios sobrevivam durante séculos.

Como os pesquisadores identificaram os cães sem pelos

Uma das principais evidências estava na dentição dos animais. Alguns apresentavam ausência congênita de determinados dentes, especialmente pré-molares, uma característica associada à mutação genética responsável pela falta de pelos em cães.

Essa associação levou a equipe a identificar provisoriamente três indivíduos como exemplares antigos do cão sem pelos peruano. No animal mumificado, a análise microscópica também revelou a presença de pelos claros e muito esparsos, característica observada em cães sem pelos atuais.

A identificação, entretanto, não foi confirmada por testes genéticos. Os autores reconhecem que a ausência de determinados dentes, isoladamente, não comprova que um animal pertencia a essa variedade.

O cão sem pelos peruano continua existindo atualmente. A raça, conhecida por sua pele praticamente sem pelagem, foi oficialmente reconhecida como patrimônio nacional do Peru pela Lei nº 27537, publicada em outubro de 2001.

A pesquisa fornece evidências físicas de cães com essas características na sociedade Wari, muito antes da expansão inca. Isso não significa, porém, que tenha sido demonstrada uma linhagem genética direta entre aqueles animais e os exemplares modernos.

Filhotes foram enterrados junto a pessoas

Os arqueólogos também identificaram situações em que cães foram sepultados próximos a seres humanos.

Um dos exemplos envolve um filhote com aproximadamente seis a oito semanas de vida, encontrado junto aos restos de um artesão de elite conhecido pelos pesquisadores como “Mestre Cesteiro”. O homem havia sido enterrado acompanhado de ferramentas e outros objetos.

Em outro contexto funerário, restos de um filhote apareceram ao lado de um homem identificado como XY, considerado um possível guardião sacrificado durante os rituais da necrópole.

Os achados sugerem que alguns cães recebiam tratamento diferenciado após a morte. Entretanto, nem todos foram encontrados em sepultamentos organizados. Parte dos ossos estava misturada a materiais descartados, e alguns apresentavam marcas de corte.

Os pesquisadores consideram possível que determinados animais desempenhassem funções simbólicas ou acompanhassem pessoas em cerimônias funerárias. Não existem, contudo, evidências suficientes para determinar precisamente o significado de cada sepultamento.

Análises revelaram consumo de milho

A investigação também examinou a alimentação dos animais por meio de análises isotópicas de ossos e dentes.

Os pesquisadores analisaram amostras de oito cães, procurando sinais químicos