Estudo japonês encontrou aumento de 50% na atividade de células de defesa

📅 23/10/2026 👁️ 1 visualizações 🏷️ Ciência
Pesquisador Qing Li em ambiente florestal, com representação de uma célula do sistema imunológico.

Em 2007, o médico e pesquisador Qing Li, da Nippon Medical School, no Japão, publicou um estudo que identificou um aumento de aproximadamente 50% na atividade de determinadas células de defesa do organismo após uma viagem de três dias a áreas florestais japonesas. Dos 12 homens que participaram do experimento, 11 apresentaram maior atividade das chamadas células natural killer (NK), responsáveis por reconhecer e destruir células infectadas ou anormais.

O resultado foi publicado na revista científica International Journal of Immunopathology and Pharmacology e deu continuidade a uma linha de pesquisa sobre os efeitos dos ambientes naturais na saúde humana.

O trabalho faz parte das investigações sobre o shinrin-yoku, expressão japonesa que pode ser traduzida como banho de floresta. A prática consiste em passar algum tempo em ambientes arborizados, geralmente caminhando devagar ou simplesmente observando a vegetação.

O que aconteceu com as células de defesa

No experimento publicado em 2007, os pesquisadores acompanharam 12 homens saudáveis, com idades entre 37 e 55 anos, durante uma viagem de três dias e duas noites.

No primeiro dia, os participantes caminharam durante duas horas por uma floresta. No segundo, fizeram outras duas caminhadas de duas horas, em áreas diferentes.

Exames de sangue realizados antes e durante a viagem mostraram aumento da atividade das células NK, além de alterações na quantidade de células que produzem proteínas como perforina, granzimas e granulisina.

Essas substâncias participam dos mecanismos utilizados pelo sistema imunológico para destruir células infectadas por vírus e células com alterações potencialmente cancerígenas.

Em outro estudo, publicado em 2008, Li e sua equipe compararam viagens a florestas com passeios por áreas urbanas, mantendo níveis semelhantes de atividade física.

Os participantes apresentaram aumento significativo da atividade das células NK depois da experiência florestal, mas não após a viagem urbana. Parte das alterações permaneceu detectável por mais de sete dias.

Um experimento de 2010 também encontrou aumento dessa atividade após uma visita de um único dia a um parque florestal nos arredores de Tóquio.

Substâncias liberadas pelas árvores podem explicar parte do efeito

Uma das hipóteses investigadas por Qing Li envolve os fitoncidas, compostos orgânicos voláteis liberados pelas plantas.

Entre essas substâncias estão o alfa-pineno e o beta-pineno, encontrados no ar de determinadas florestas. Alguns desses compostos participam dos mecanismos químicos de defesa das plantas contra microrganismos e outros organismos.

Para investigar sua possível influência sobre o sistema imunológico humano, os pesquisadores realizaram um experimento publicado em 2009.

Doze homens saudáveis passaram três noites em um hotel urbano, onde um umidificador dispersava compostos voláteis provenientes do óleo de uma espécie de cipreste japonês.

Depois da exposição, exames identificaram maior atividade das células NK e redução das concentrações urinárias de adrenalina e noradrenalina.

Os autores consideraram que os fitoncidas poderiam contribuir para as alterações imunológicas observadas.

Entretanto, os experimentos não demonstraram diretamente que essas moléculas, ao serem inaladas nas florestas, chegam à corrente sanguínea em concentrações suficientes para explicar todos os resultados.

Também não estabeleceram qual quantidade de fitoncidas seria necessária para produzir os mesmos efeitos em diferentes pessoas.

Caminhadas também foram associadas à redução do estresse

Os possíveis benefícios não ficaram restritos às células imunológicas.

Um estudo publicado em 2010 acompanhou 280 homens jovens em experimentos realizados em 24 florestas japonesas.

Os pesquisadores compararam respostas fisiológicas durante caminhadas e períodos de observação da paisagem em ambientes florestais e urbanos.

Nas florestas, a concentração média de cortisol na saliva foi 15,8% menor após as caminhadas, em comparação com a condição urbana. Também foram registradas reduções na frequência cardíaca e na pressão arterial.

O cortisol participa da resposta do organismo ao estresse. Sua redução durante essas experiências é compatível com um estado de maior relaxamento.

Em fevereiro de 2026, uma revisão científica realizada por pesquisadores ligados à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) reuniu 11 estudos sobre os efeitos cardiovasculares e psicológicos dos banhos de floresta.

A análise encontrou associações com reduções da frequência cardíaca e da pressão arterial sistólica. Entretanto, classificou a certeza das evidências como muito baixa, principalmente devido às limitações metodológicas dos trabalhos examinados.

O que os estudos ainda não comprovaram

Embora o aumento da atividade das células NK tenha sido medido em experimentos, isso não significa que caminhar por uma floresta reduza comprovadamente o risco de desenvolver câncer.

Os estudos de Qing Li avaliaram indicadores imunológicos em grupos pequenos. Eles não demonstraram redução da incidência de tumores, de infecções ou da mortalidade entre os participantes.

Também não é possível afirmar que qualquer caminhada em uma área verde produzirá um aumento de 50% na atividade imunológica.

Para leitores brasileiros, existe outra limitação: grande parte dos experimentos foi realizada em florestas japonesas, com espécies vegetais e condições ambientais diferentes das encontradas em parques urbanos, na Mata Atlântica ou na Amazônia.

A composição e a concentração das substâncias liberadas pelas árvores podem variar conforme a vegetação e as condições do ambiente.

Ainda faltam estudos maiores e de longa duração para determinar quanto tempo de exposição seria necessário, se os resultados se repetem em diferentes populações e se as alterações laboratoriais representam benefícios clínicos duradouros.

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